Trote, o crime dos acadêmicos.
Postado em 01.03.2010 - 12:28
Em 1991 eu iniciava a minha formação médica aos 17 anos, e após um ano de estudos e muita dedicação, eu iria pela primeira vez assisitir a uma aula na Faculdade de Medicina. Mas ao chegar lá percebi um grau de agitação um tanto quanto exagerado, com gritos e palavras não condizentes com o ambiente que eu imaginava ser de um curso como este. Neste momento fui identificado como mais um calouro por um grupo de veteranos, e assim começou o meu primeiro dia na Faculdade. A primeira coisa a que fui submetido foram ofensas morais, seguida da raspagem do meu cabelo com a confecção de palavras de baixo calão (escritas com ortografia errada, por sinal). A seguir, tive o meu caderno roubado por um veterano, que o rasgou inteiro, sem deixar uma única página intacta. Neste momento eu lhe sugeri que utilizasse o caderno, o que seria algo mais inteligente. Ele preferiu o vandalismo. Quando eu já acreditava que o meu martírio estava chegando ao fim, fui levado à uma área gramada e que havia sido molhada pelos alunos mais velhos. A partir daí as agressões se tornaram mais rudes e físicas. Fui obrigado a me deitar sobre a lama, e solicitado a afundar o meu rosto naquele piso. Como me recusei, recebi um soco nas costas e senti um pé em minha nuca, que obviamente empurrou a minha cabeça contra o piso de lama. Como mostrei certa revolta neste momento, fui seguro por dois veteranos, enquanto um terceiro colocou a mão no meu bolso e roubou o dinheiro que tinha para a minha condução. Em toda a minha vida aquele foi o único dia em que fui assaltado, e o pior, o crime foi cometido por pessoas que atualmente se dizem médicos e profissionais da saúde. Quanto a uma possível punição, eles receberam apenas um aviso da Faculdade para que o trote fosse encerrado. Infelizmente, como assistimos nos últimos dias, este crime ainda é cometido livremente, e principalmente por “bandidos de jaleco branco”, como aconteceu na Universidade de Mogi das Cruzes na semana passada, quando um sítio foi alugado e se transformou em um campo de tortura.
Todos os anos assistimos em programas jornalísticos e lemos em jornais e revistas sobre a prática absurda do trote, e ele continua sempre vivo e cada vez mais requintado. Há alguns anos um calouro de Medicina morreu afogado durante um destes eventos primitivos, e mesmo assim o trote ainda é visto como brincadeira e confraternização por alguns. Somente neste ano assistimos alunos queimados, agredidos, constrangidos, cuspidos, e as Faculdades continuam com uma postura muito frouxa sobre isto. Na minha Faculdade, as meninas eram obrigadas a inverter a ordem das roupas e vestirem as roupas íntimas por cima das roupas tradicionais, o que causava imensa vergonha a elas. Imagine se um bando de vagabundos submetesse a sua filha a uma agressão como esta. Também vi jovens menores de idade, assim como eu quando ingressei na Faculdade, serem obrigados a ingerir bebidas alcoólicas em grande quantidade até a completa embriaguez. E o pior, nunca vi um crimonoso deste ser ao menos suspenso.
Sinceramente, não sou formado em Psicologia ou qualquer outra área que busque o entendimento do comportamento humano, mas posso lhes afirmar que os grandes aplicadores de trote que conheci eram alunos medíocres, com auto-estima muito baixa e que como médicos não fariam falta alguma à Sociedade. E por isso não entendo a complascência que as Faculdades dão a este tipo de aluno. Se eu como aluno conseguia identificar os agressores mais violentos, por que as Faculdades não poderiam fazer o mesmo? De qualquer forma, acredito que o trote já se tornou um problema de polícia, e que estes alunos deveriam ser tratados como bandidos, assim como são tratados os assaltantes e ladrões comuns, mas que por azar ou condição social, vivem em favelas ou em áreas muito carentes, ao contrário dos alunos de Mogi das Cruzes, que pagam R$4000,00 reais por mês para cursar a Faculdade de Medicina.
Como passei pessoalmente por este tipo de humilhação, sei que as consequências emocionais que um processo violento como este pode causar em um jovem. Eu me lembro de chorar muito no caminho de casa após ter sido liberado do meu trote e da imensa decepção que tive naquele dia em relação à Faculdade de Medicina. Por isso, recomendo aos Pais que busquem a lei caso sintam que os seus filhos foram violentados de alguma maneira, comuniquem a imprensa sobre os fatos ocorridos e exijam punição por parte das Universidades em relação aos “alunos criminosos”. Em relação às Faculdades, que elas coordenem uma confraternização de bom gosto e que punam de forma rigorosa os alunos que possam trazer qualquer problema moral ou físico aos recém-chegados.



01.03.2010 às 18:02
Doutor Fernando, muito legal e consciente o seu desabafo.
Isso tudo é muito assustador e triste. Independente se o cara será médico, advogado, jornalista, economista, a violência física ou moral é inadmissível.
Passo quase que diariamente pela unidade de direito da FMU na Liberdade e já tive o meu carro chutado diversas vezes porque tentei passar pela rua, que estava completamente tomada pelos “futuros advogados, juizes, desembargadores” que bebem e fumam maconha quase que diariamente. Sim, a rua é deles, motorista ali deve ser linchado, xingado, humilhado…
Uma triste realidade que, infelizmente, matéria alguma lecionada em universidade mudará.
03.03.2010 às 10:30
Prezado Dr. Fernando,
Muito bem escrito o seu artigo sobre o trote que de modo violento vem sendo aplicado na maioria das faculdade de nosso país.
Sei que todas as profissões e profissionais são dignos e merecem o respeito de todos nós. Contudo, em minha humilde e modesta opinião, o profissional de medicina é sem sombra de dúvidas um ser humano diferenciado. Este profissional tem sob sua responsabilidade o bem mais precioso do ser humano, que é a saúde.
Sem a saúde de nosso corpo físico nada podemos fazer. Uma pessoa sem saúde é impossibilitada de viver uma vida de alegria plena, então por comparação podemos dizer que este profissional possui em suas mãos o poder de restaurar e manter a alegria de um ser humano.
Jesus, o nosso mestre por excelência, disse-nos há mais de 2000 anos atrás: “A quem muito foi dado muito será pedido”.
Mais uma vez, em minha humilde e modesta opinião, acho que estas pessoas que aplicam este tipo severo de punição aos “calouros” de uma universidade não possuem a mínima condição de exercer uma profissão tão sublime e importante.
Pessoas estas, que como podemos verificar pelas imagens são dotadas de grande agressividade, assemelhando-se mais aos bárbaros que viviam nas cavernas. Como que este indivíduo irá cuidar de um paciente que esta necessitando de carinho e atenção em função de seu estado emocional abalado pela falta de saúde???
Sinceramente, eu não colocaria nas mãos destes médicos que têm apresentado este tipo de comportamento a minha saúde.
Para finalizar coloco abaixo o discurso de nosso querido Doutor Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti sobre o que deve ser o verdadeiro profissional da medicina.
“O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. O que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou tempo, ficar longe, ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro – esse não é médico, é negociante de negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros os gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda, para outro, o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida.
Saúde e Paz,
Ronaldo.
19.03.2010 às 14:44
Um testemunho narrado na primeira pessoa do singular é sempre impactante e este, em particular, deveria ser divulgado em muitos ambientes acadêmicos onde se imagina uma maior evolução da espécie humana que, no entanto, é superada por uma inadmissível barbárie por ocasião destes trotes universitários que são tolerados como “ritos de passagem” mas que, na verdade são verdadeiras sessões de sadismo praticado por “veteranos” contra indefesos calouros que chegam à universidade cheios de sonhos e motivação, ainda não vacinados e desprotegidos dos vírus da intolerância, da leniência dos reitores e da mediocridade que se traveste de violência por parte de certos universitários, futuros doutores, cujo perfil moral arrastarão para a sua vida profissional. Formados irão tratar seus pacientes com o mesmo padrão com que tratavam os calouros, embora com maior sutileza, mas apenas como um mecanismo de sobrevivência necessário para não deixar evidente a sua má índole…
Parabéns, doutor Fernando, por seu berço privilegiado, por sua educação esmerada e por sua indefectível ética médica retratada nos textos e nas respostas às angustiosas questões expressas por muitos pacientes nos comentários dos artigos postados em seu blog. Parabéns, doutor, considero paradigmática esta iniciativa e gostaria que fosse imitada por muitos profissionais da área médica.
21.03.2010 às 08:07
Luiz, primeiramente gostaria de lhe dizer que foi uma honra a este blog e pessoalmente a mim receber um comentário de tão alto nível como o seu. Mais do que isto, sugiro que você inicie um blog e passe a emitir a sua opinião de forma pública e constante. Muito obrigado.
Além disso, agradeço o incentivo para que eu continue atuando desta forma na Internet, já que este é um trabalho social sério e ético, e que realmente poderia inspirar outras áreas de atuação. Um grande abraço.