Check-up nutricional: o que é e por que fazer?

Check-up nutricional: o que é e por que fazer?

Dr Fernando Valerio - Blog -  Checkup Nutricional
É notório que uma dieta positiva e um estilo de vido adequado proporcionam saúde e bem estar, mas que uma dieta com aspectos negativos e um estilo de vida inadequado se relacionam com doenças e morte. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 65% da população mundial vive em países onde a obesidade é maior que a desnutrição, e que há mais obesos do que subnutridos no Mundo. Isto obviamente tem impacto no surgimento de doenças, na qualidade de vida e financeiro (seja individual ou governamental). Está claro que a alimentação se relaciona intimamente com as principais causas de morte no Mundo, como o infarto do miocárdio, o acidente vascular cerebral (AVC), o diabetes, o câncer, as doenças demenciais, a hipertensão arterial e suas consequências (doenças renais), as diarreias agudas (infecciosas) e acidentes automobilísticos (relacionados à ingestão de álcool). Por estas razões é que é tão importante saber em que estado nutricional nos encontramos, se estamos nos alimentando corretamente, se já estamos com fatores de risco presentes para doenças potencialmente fatais e que se relacionam com a alimentação inadequada. O objetivo deste artigo é discutir como esta avaliação é feita e a sua importância, levando-se em conta os aspectos clínicos, exame físico e exames laboratoriais.

Primeiramente, qual especialista deveria realizar este check-up? A resposta é: o nutrólogo. A Nutrologia é uma especialidade médica que estuda a função dos nutrientes na saúde e seus distúrbios nas doenças. Isto implica que este médico deve entender da fisiologia bioquímica, e do metabolismo, da digestão, absorção, armazenamento e excreção das substâncias nutritivas responsáveis pelo funcionamento normal do organismo. Desta forma, a Nutrologia e o médico nutrólogo estudam o desenvolvimento das doenças, o diagnóstico, a prevenção e o tratamento das doenças que envolvem os nutrientes e a nossa alimentação, o que chamamos de “nutropatias”. Estudam-se assim as nutropatias resultantes desde a falta ou excesso de ingestão de nutrientes até os distúrbios metabólicos, celulares e moleculares relacionados às funções orgânicas dos nutrientes dentro do organismo.

O diagnóstico do estado nutricional é feito por meio da interpretação de informações obtidas a partir de avaliações nutricionais dietéticas, bioquímicas e antropométricas (medidas físicas). Seu objetivo é identificar os distúrbios nutricionais, possibilitando uma intervenção adequada capaz de auxiliar na recuperação e/ou manutenção do estado de saúde do paciente. Sabe-se que não existe um único exame que determina com certeza qual o estado nutricional de uma pessoa, e por isso, deve-se utilizar mais de um método de avaliação. Ao final, o que se pretende é chegar a um dos dois diagnósticos nutricionais clássicos: eutrofia (nutrição adequada) e desnutrição (subnutrição ou supernutrição).

O primeiro método de avaliação nutricional que compõe o check-up nutricional é o inquérito alimentar, que é a pesquisa de hábitos de ingestão alimentar. Este inquérito deve abordar dois aspectos: a quantidade e a qualidade dos alimentos ingeridos.  O inquérito alimentar deve incluir uma série de questionamentos, tais como: houve perda ou ganho de peso, quantas refeições se faz durante o dia, quais os alimentos mais utilizados na dieta, há alergia ou intolerância alimentar já sabida, há ingestão excessiva de álcool, utiliza-se algum suplemento alimentar, como é o hábito intestinal, há alguma dificuldade na mastigação ou problema dentário, tem alguma doença crônica, tem alguma doença do aparelho digestivo, faz-se atividade física? Por isso, a história nutricional deve ser feita com calma e por profissional especializado, visto que a gama de fatores que influenciam na nossa saúde alimentar é enorme. Quanto à avaliação quantitativa, este é o método que permite os cálculos a respeito da ingestão de nutrientes, podendo-se assim balancear a quantidade dos componentes dos alimentos ingeridos, como gorduras, carboidratos e proteínas, por exemplo. Além disso, para cada alimento deve-se procurar saber a quantidade ingerida, a forma de preparo ou se é um alimento industrializado ou processado previamente.

O exame físico permite que se detectem sinais genéricos de carências ou excessos nutricionais. O exame físico pode ser genérico, como na avaliação da pele, das mucosas, da língua, do cabelo, da temperatura e da frequência cardíaca, mas também pode ser específica aos dados físicos, o que denominamos antropometria. A antropometria é um método de avaliação nutricional que possui inúmeras vantagens, já que são métodos não invasivos, que utiliza equipamentos de baixo custo e que pode ser feito de maneira rápida. Além disso, pode ser aplicado em qualquer fase de vida da pessoa, seja criança, adolescente, adulto ou idoso. Também pode ser aplicado em condições especiais, como nos atletas e nas gestantes. Os principais aspectos avaliados na antropometria são o peso, a estatura, as dobras cutâneas e as circunferências do corpo. Através desta avaliação é possível se concluir sobre a composição física de alguém, entendo-se a composição de massa óssea, massa magra (músculos) e massa gorda.

O peso é a soma da massa adiposa e da massa magra corporal. A estatura é a medida do corpo em seu eixo vertical. A relação entre estas duas medidas deve gerar uma proporcionalidade, ou seja, o peso deve ser compatível com a altura do indivíduo. Por isso, utiliza-se o cálculo do índice de massa corpórea (IMC), que se encontra através da divisão do peso (em kilogramas) pela estatura ao quadrado (em metros). Através do IMC é possível sugerir se uma pessoa está abaixo, acima ou com o peso ideal. Outro método utilizado para a se estimar a porcentagem de gordura corporal é a medida das dobras cutâneas, pois 50% da gordura é armazenada no tecido subcutâneo. Também se observam as circunferências do corpo, como a do braço (que reflete a massa muscular) e a do abdome (que reflete a gordura visceral). A medida da circunferência abdominal é simples e barata, mas diz muito sobre o nosso risco de desenvolver doenças cardiovasculares, hipertensivas e diabetes, visto que ela representa a gordura que está presente em nossos órgãos. Atualmente há métodos mais elaborados e caros para a pesquisa da composição corporal, mas que já são  utilizados, como o a bioimpedância e o DEXA (densitometria de corpo inteiro), e que mostram resultados muito interessantes. Particularmente, eu acho que as medidas de pregas e circunferências são importantes porque podem ser medidos com frequência, no próprio consultório, criando-se assim um gráfico de evolução do quadro toda vez que o paciente retorna para uma avaliação. Por outro lado, eu costumo solicitar um exame de densitometria de corpo inteiro (DEXA) no início do meu acompanhamento, visto que este é um exame com padrão ouro para a avaliação da composição corporal e que dá informações sobre a massa óssea, gordurosa e muscular com muita precisão.

Outra avaliação importante é a laboratorial, mas que deve levar em consideração juntamente aos dados obtidos no inquérito alimentar, na história clínica do paciente, no exame físico e na antropometria. Os exames laboratoriais e bioquímicos mais utilizados para a avaliação nutricional são o hemograma, a dosagem de minerais e seus componentes (ferro, sódio, potássio, cálcio, fósforo, magnésio, zinco e cobre), colesterol e suas frações, triglicérides, glicemia e hemoglobina glicada, enzimas e produtos do metabolismo hepáticos (TGO, TGP, gama-GT, fosfatase alcalina, bilirrubinas), enzima pancreática (amilase), hormônios da tireoide (T3, T4, TSH), proteínas totais e suas frações, marcadores inflamatórios (proteína C-reativa, velocidade de hemossedimentação), enzimas musculares (creatinofosfo-quinase), ácido úrico e vitaminas (A, D, E, C, B1, B6, B12 e ácido fólico).

Acredito que com este artigo foi possível mostrar a importância da avaliação nutricional e as consequências deste cuidado, os principais métodos utilizados e o especialista indicado para solicitar, fazer, interpretar e conduzir os cuidados após a realização da avaliação.

Postado por:

Dr. Fernando Valério