Doença Celíaca e Diabetes Mellitus: quando o glúten e o açúcar viram nossos inimigos!

Diabetes mellitus é uma alteração comum em nosso meio, sendo responsável por muitos casos de cegueira, insuficiência renal grave e doenças cardiovasculares. A preocupação é que um dos tipos de diabetes, a tipo 1 (insulino-dependente), está relacionada com a doença celíaca. Sabe-se que 8 a 10% dos pacientes com diabetes mellitus tipo 1 são celíacos! A associação entre a doença celíaca e a diabetes tipo 1 já foi estabelecida há mais de 40 anos. Clínicas e médicos especializados em diabetes já fazem pesquisa para o diagnóstico de doença celíaca em portadores de diabetes tipo 1, mas infelizmente alguns outros não!

Diabetes mellitus é uma doença metabólica gerada pela deficiência ou falta de insulina, um hormônio que capacita o corpo a usar e estocar o açúcar. A glicose, o açúcar mais importante para o nosso organismo, é uma fonte nutricional indispensável para o funcionamento do nosso corpo, já que é a nossa principal fonte de energia. Mas na falta de insulina, este açúcar se mantém na circulação sanguínea, causando o que chamamos de hiperglicemia. Assim, a glicose não consegue entrar nas nossas células e desempenhar a sua função.

Como forma de preservar a glicose, um nutriente tão importante, os nossos rins filtram a glicose e a devolvem para a corrente sanguínea. Em pessoas sadias, a insulina consegue reutilizar este açúcar. Mas quando há uma sobrecarga de glicose no sangue, o rim tem dificuldade de reter este excesso, e o diabético passa a urinar a glicose, evento chamado de glicosúria. Este evento causa a produção de urina excessiva, com aumento de frequência urinária e sede. E como o corpo se ressente da disponibilização da sua fonte preferida de energia, a glicose, passa a buscar energia em outros locais, como no músculo e gordura. As consequências disto são a perda de peso, de massa muscular e aumento de apetite.

Há dois tipos principais de diabetes mellitus, o tipo 1 e o tipo 2. O tipo 1 é o insulino-dependente, conhecida como diabetes “juvenil”, que é uma doença auto-imune e que ocorre principalmente em pessoas jovens, mas que pode afetar adultos. Neste caso, o sistema imunológico ataca e destrói as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Por isso, o uso de insulina é imprescindível para estes pacientes. Este é o tipo de diabetes relacionado com a doença celíaca! No diabetes tipo 2, ou diabetes não-insulino-dependente, o que ocorre é uma resistência à insulina. Esta forma é mais comum em adultos, e se caracteriza pela ineficácia da insulina produzida. A diabetes tipo 2 não é uma doença autoimune, e é mais comum em indivíduos mais velhos e obesos. Esta forma de diabetes é tratada inicialmente com orientação alimentar e uso de medicamentos hipoglicemiantes orais.

Em pacientes que apresentam a doença celíaca e a diabetes tipo 1, em geral a diabetes é diagnosticada primeiro. A doença celíaca é diagnosticada posteriormente quando sintomas como retardo de crescimento (crianças) intolerância à lactose, gases intestinais, diarreia, perda de peso inexplicada, fadiga extrema, anemia e dificuldade em controlar a diabetes estão presentes. Mas como os sintomas digestivos podem estar presentes na diabetes, algumas vezes toda responsabilidade destas queixas recai sobre a diabetes, e a doença celíaca acaba sendo negligenciada, mesmo com sintomas presentes.

A associação entre as duas doenças é explicada pelos seguintes mecanismos: predisposição genética e auto-imunidade. Em relação ao aspecto genético, ambas as doenças têm relação com o genes HLA-DQ2 e HLA-DQ8. Mais estudos são necessários para identificar a função específica destes genes no desenvolvimento das doenças. Além da predisposição genética há também o componente auto-imune. Neste caso, o organismo produz anticorpos contra a insulina e/ou as células beta do pâncreas, que as são as responsáveis pela produção do hormônio. Estudos mostram que crianças recém-diagnosticadas para a doença celíaca têm uma prevalência significativamente maior de apresentarem estes anticorpos do que os não-celíacos. A boa notícia é que se a criança é diagnosticada para a doença celíaca precocemente e a diabetes ainda não se instalou, a dieta sem glúten causa a diminuição dos níveis de anticorpos contra a insulina e células do pâncreas.

Após o diagnóstico de ambas as doenças, a seguintes medidas devem ser tomadas:

  1. controle dos níveis séricos de açúcar (controle de glicemia)
  2. dieta sem glúten, observando a quantidade de carboidratos
  3. reconhecer e tratar as complicações de cada doença
  4. adequação de estilo de vida e comprometimento com as mudanças

Os pacientes com doença celíaca e diabetes tipo 1 não precisam apenas evitar o glúten, mas também deve haver um balanço entre as necessidades de insulina e os níveis de atividades diárias. A resposta glícêmica para muitos produtos gluten-free pode ser rápida e intensa, e isto pode afetar os níveis de insulina e estabelecer um padrão dietético. Isto ocorre porque muitos produtos gluten-free são ricos em amido e açúcares, mas pobre em fibras, quando comparamos com produtos similares com glúten (bolos, pães, cereais, bolachas). Por isso é ainda mais importante que se aprenda a ter uma alimentação sem glúten saudável e menos industrializada, o que é bem possível quando há boa orientação nutricional.

Apesar de ambas as doenças serem diagnosticadas em qualquer idade, é muito comum que este diagnóstico seja estabelecido em crianças, adolescentes e adultos jovens. Obviamente isto traz uma série de dificuldades emocionais e sociais para este grupo. Adolescentes e adultos jovens sem estas doenças já apresentam uma série de erros alimentares comuns à idade. E acrescentar duas doenças com tanto impacto na rotina alimentar gera uma enorme frustração e dificuldade de seguimento. Não é fácil ter que perguntar aos amigos “o que”, “quando” e “onde” comeremos todas as vezes que se pensa em uma atividade social, algo ainda mais impactante para esta faixa etária. Por mais difícil que seja, é preciso que se entenda que não respeitar regras alimentares necessárias culminará em pagar um preço muito caro no futuro, com diversas comorbidades associadas à doença celíaca e a diabetes. É sempre interessante pensar em acompanhamento psicológico para o paciente e sua família. A participação em grupos de apoio também traz bons resultados, tanto pelo aspecto solidário como pela troca de informações e orientação.

E quando se inicia a dieta sem glúten, o que muda? Muda muito! Com a restrição a ingestão do glúten a mucosa do intestino começará a desinflamar e a voltar ao seu funcionamento normal. Em pacientes com quadro severo de doença celíaca, a partir deste momento os carboidratos serão melhor absorvidos e poderão ser metabolizados pela insulina. Enquanto o intestino não está totalmente cicatrizado a absorção de carboidratos é variável, e é muito importante que ocorra a adequação da dose de insulina e de carboidratos ingeridos. Com o tempo os níveis de glicose no sangue se estabilizarão e o controle glicêmico se dará com mais facilidade.
Ter uma dieta sem glúten não irá curar alguém que já apresenta a diabetes tipo 1 ou reverter as suas complicações. Mas a produção de auto-anticorpos pode desaparecer e uma dieta gluten-free, e isto teria um efeito positivo em alguém com duas doenças autoimunes. Além disso, obviamente se evitaria o surgimento de outras doenças auto-imunes relacionadas à doença celíaca. Como se sabe, quem tem doença auto-imune pode ter outra!

Dr. Fernando Valério
Médico Gastroenterologista e Nutrólogo
Especialista em Doença Celíaca e Doenças Intestinais Funcionais

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Dr. Fernando Valério