Doença Celíaca: a doença camaleão!

Doença Celíaca: a doença camaleão!

Camaleões são animais reconhecidos por sua capacidade de camuflagem, de se esconderem através da mudança da sua cor e de se misturar ao ambiente. Desta forma, evitam e confundem os seus predadores. Estes animais não têm um padrão único de apresentação, aparecem de várias formas!
A DOENÇA CELÍACA (DC) também apresenta esta falta de padrão, com sintomas e sinais muito amplos e variados. E pior, às vezes estes sintomas simplesmente não existem ou se apresentam na forma de outras doenças! Isto faz com que os médicos, “os predadores”, não a identifiquem com facilidade. Médicos de várias especialidades não enxergam a doença, mas ela está ali, olhando para eles! Esta é umas das razões para que apenas 15% dos pacientes celíacos estejam diagnosticados. O nosso cérebro é treinado para interpretar o que vemos, mas para o diagnóstico da doença celíaca também é preciso estar pronto para o que não vemos!
É importante ressaltar que diagnósticos precoces e uma vida isenta de glúten na dieta favorecem muito a evolução mais tranquila da doença celíaca e com muito menos complicações. Mas o contrário, infelizmente, também é verdadeiro, com doenças e comorbidades se instalando naqueles sem diagnóstico e que não se cuidam. Diagnosticar estes pacientes é um desafio que precisamos enfrentar com mais preparo e dedicação.
No seu início, a doença celíaca foi descrita como uma alteração gastrointestinal, que afetava principalmente as crianças de raça branca, geralmente mal nutridas. Esta era a forma “clássica”! Mas isto mudou muito nas últimas décadas, e hoje a doença é reconhecida como um problema sistêmico e de vários órgãos, podendo estar presente em qualquer idade e grupos étnicos. Sabe-se que o maior número de diagnósticos ocorre entre a terceira e quarta décadas de vida. E que 40% dos pacientes diagnosticados sofrem com o sobrepeso e obesidade. Preconceitos e estigmas não ajudam no diagnóstico desta doença tão complexa. O atípico virou típico!
Apesar de ser uma condição que afeta primariamente o intestino, médicos devem estar atentos que sintomas de má absorção de nutrientes e desnutrição não são a única regra no momento. Os sintomas classicamente descritos incluem diarreia, perda peso e baixa estatura. Mas sintomas não específicos como anorexia, vômitos, dor abdominal, aumento de gases e constipação também podem estar presentes. Quanto às manifestações atípicas, tão comuns hoje, estas incluem uma série de alterações em órgãos extra-intestinais, como anemia, hepatite autoimune, alterações ósseas (osteoporose), sintomas neurológicos, doenças de pele, alterações endócrinas e distúrbios ginecológicos, além das diversas doenças autoimunes e seus sintomas.
A anemia, por exemplo, é a alteração mais comum em adultos assintomáticos, ocorrendo em 10 a 20% dos celíacos adultos. E a enxaqueca, causa tão frequente em consultórios de neurologistas, também é um sintoma frequente. Diabetes tipo 1, sabia que 8 a10% destes pacientes são celíacos? E em quantas clínicas de fertilização o diagnóstico de doença celíaca é lembrado nos casos de infertilidade? E osteoporose em uma moça de 30 anos, isto não deveria chamar a nossa atenção?
Estes são alguns exemplos de “camuflagem” que ocorrem na doença celíaca, e por isso sempre que alguma destas alterações se apresenta e não há uma causa clara que as justifique, pergunte-se se não há um celíaco “camuflado” sentado à sua frente. É preciso estar atento ao que não é óbvio, e este um grande desafio! Pensar nos sintomas clássicos do passado é um grande erro e um atestado de falta de atualização sobre a doença.
O camaleão tem olhos que funcionam de forma independente, e isto faz com que tenham uma visão de 360°. Para se diagnosticar a doença celíaca é preciso estar atento e também ter uma visão ampla, habilidades que são conquistadas com estudo árduo e frequente. Mas lembre-se, ver é diferente de enxergar! Este é o maior segredo!

Dr. Fernando Valério
Gastroenterologista e Nutrólogo
Especialista em Doença Celíaca e glúten, alergias e intolerâncias alimentares, e doenças intestinais funcionais.
Membro da International Society for the Study of Celiac Disease

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Dr. Fernando Valério