10 mai 19

dermatite herpéticaA doença celíaca é uma doença autoimune, com bases genéticas, e que é desencadeada pela ingestão de uma proteína chamada glúten (contida no trigo, centeio e cevada). A doença celíaca compromete principalmente o intestino, causando alterações nutricionais. Mas grande parte dos pacientes é diagnosticada com doenças autoimunes relacionadas, e a dermatite herpetiforme é uma das mais importantes.

A dermatite herpetiforme é a doença celíaca da pele. As erupções cutâneas causadas por esta dermatite, assim como uma variedade de sintomas causados pela doença celíaca, são comumente mal diagnosticadas e tratadas como outras lesões de pele. Pacientes com dermatite herpetiforme comumente vêem numerosos dermatologistas sem atingir um diagnóstico preciso. São erradamente diagnosticados como vítimas de picadas de inseto, eczema, prurido, psoríase, dermatite de contato e até mesmo, dermatite “inexplicada”. Dos milhões de pacientes já diagnosticados atualmente com a doença celíaca, aproximadamente 10% podem apresentar a dermatite herpetiforme. Ao contrário da doença celíaca, os homens são afetados duas vezes mais pela dermatite, e a média de idade para o aparecimento das lesões cutâneas varia de 25 a 45 anos. A dermatite raramente afeta adolescentes e crianças pré-púberes. Este retardo para o surgimento dos sintomas sugere que deve haver um longo período de estimulação imunológica sistêmica para que a dermatite se desenvolva. Além disso, os estudos também mostram que aproximadamente 20 a 30% dos pacientes com dermatite herpetiforme tem alterações na tireoide, e muitos não apresentam sintomas digestivos (90%). Na verdade, as manifestações cutâneas (pele) não se relacionam com a severidade da lesão intestinal, e 20% dos pacientes com esta dermatite têm resultados de biópsias de intestino normais.

A dermatite herpetiforme é caracterizada por prurido (coceira) intenso e erupção de bolhas. A descrição clássica sugere que as lesões aparecem em superfícies extensoras (cotovelos e joelhos), mas na verdade elas podem surgir em qualquer local do corpo. Devido ao prurido, os pacientes coçam estas lesões até que elas se rompam e sangrem, levando a formação de escoriações. Estas lesões bolhosas tendem a surgir no mesmo local a cada crise, e são comumente espelhadas (simétricas) em ambos os lados do corpo. Outro aspecto relevante, é a diminuição da qualidade de vida, já que os episódios de dermatite herpetiforme comprometem o sono, a vida profissional e familiar, o lazer e outros aspectos psicológicos. Alguns pacientes referem que o suor durante os exercícios podem irritar as bolhas. E infelizmente as lesões cutâneas causadas pela coceira podem deixar cicatrizes na pele.

A dermatite herpetiforme será uma condição crônica e permanente até que a dieta sem glúten (gluten free) seja adotada.

Em relação ao diagnóstico, os testes sanguíneos para a doença celíaca (antiendomísio e antitransglutaminase tecidual) pode ser positivos ou negativos em pacientes com dermatite herpetiforme. Mais de 30% dos pacientes com esta dermatite não apresentarão estes anticorpos presentes no sangue, visto que eles se relacionam com a intensidade das lesões intestinais e não com as cutâneas. Por isso, o exame mais preciso para o diagnóstico de dermatite herpetiforme é a biópsia da pele normal adjacente a área de erupção da lesão, e que busca encontrar depósitos de imunoglobulina A nesta região. Quanto às biópsias de intestino, elas não são necessárias a não ser que os pacientes apresentem sintomas intestinais associados. Se alguém tem um diagnóstico de dermatite herpetiforme, este alguém tem doença celíaca! E a dieta sem glúten devem ser adotada imediatamente, não importando se o intestino possa parecer normal.

A dermatite herpetiforme, assim como na doença celíaca, exige uma predisposição genética, exposição ao glúten prolongada e uma resposta imunológica exacerbada. Em indivíduos suscetíveis, a estimulação crônica do sistema imunológico pelo glúten produz anticorpos IgA que se ligam à pele e causam a dermatite herpetiforme.

Quanto ao tratamento, ele é composto pela aderência irrestrita à dieta sem glúten e  uso de medicações que aliviam os sintomas cutâneos. A droga mais usada no tratamento da dermatite herpetiforme é o Dapsone, que tem como função diminuir o processo inflamatório na pele. Mas o efeito desta medicação é parcial, e jamais exclui a necessidade de se manter a dieta sem glúten. Além disso, o dapsone é uma medicação associada a muitos efeitos colaterais, como anemia hemolítica, leucopenia (diminuição de células brancas no sangue), dores de cabeça, neuropatia periférica, lesão renal e fadiga. Cremes tópicos com corticóides também são prescritos para o alívio dos sintomas, mas não devem ser usados por muito tempo. Outros cremes imunomoduladores (tracolimus, por exemplo) também são usados.

É preciso deixar claro que nem os tratamentos medicamentos sistêmicos ou tópicos eliminam a causa das erupções. Eles simplesmente diminuem os sintomas da dermatite, mas que sempre se apresentarão com a ingestão do glúten. E como os depósitos de IgA se ligam a pele com muita intensidade, mesmo após o início da dieta sem glúten, os sintomas podem persistir por 12 a 24 meses.  Por isso os medicamentos podem ser interessantes neste período após o diagnóstico da dermatite.

E os pacientes deverão ser realmente “pacientes”. Cada vez que houver a ingestão inadvertida de glúten, os sintomas podem recorrer e durar por um período de uma a duas semanas, mesmo que não ocorra a ingestão adicional de glúten neste período.

A dermatite herpetiforme é um exemplo mais do que claro da existência da doença celíaca “silenciosa”. Muitos pacientes manifestam os sintomas após os 20 a 40 anos de vida, o que mostra que o processo autoimune “trabalha” na pele por décadas de ingestão do glúten. E assim como ocorre na doença celíaca clássica, a dermatite herpetiforme também está associada a doenças autoimunes como a tireoidite, diabetes tipo 1, lupus, vitiligo e Síndrome de Jögren. Portanto, quanto mais precocemente fizermos este diagnóstico, além de tratarmos os sintomas atuais, estaremos prevenindo outras doença associadas no futuro.

Dr. Fernando Valério
Gastroenterologista e Nutrólogo

A doença celíaca é uma doença autoimune, com bases genéticas, e que é desencadeada pela ingestão de uma proteína chamada glúten (contida no trigo, centeio e cevada). A doença celíaca compromete principalmente o intestino, causando alterações nutricionais. Mas grande parte dos pacientes é diagnosticada com doenças autoimunes relacionadas, e a dermatite herpetiforme é uma das […]
03 abr 19

A produção de ácidos pelo estômago está precisamente regulada para maximizar os benefícios e minimizar os prejuízos. O suco gástrico mata microrganismos ingeridos, mantém o estômago e o intestino delgado relativamente estéreis, modula a flora intestinal, ajuda na digestão das proteínas e facilita a absorção de ferro, cálcio e vitamina B12, além de melhorar a ação de alguns medicamentos que são mais ativos em ambiente ácido. No entanto, quando os níveis do ácido gástrico (clorídrico) se sobrepõe aos mecanismos de defesa na mucosa do estômago, o refluxo gastroesofágico, gastrite e úlcera péptica (estômago e duodeno) podem ocorrer.

O desenvolvimento dos “bloqueadores de bomba de prótons” (omeprazol, lansoprazol, pantoprazol, rabeprazol, esomeprazol e dexlansoprazol) revolucionou o tratamento das doenças do estômago e esôfago, como refluxo gastroesofágico, esofagite, gastrite, infecção por Helicobacter pylori  e úlcera. Esta família de medicamentos age nas células do estômago causando a diminuição da produção de ácido pelo estômago. A capacidade anti-secretória dos bloqueadores de bomba reduziram as complicações e hospitalizações causadas por estas doenças, melhorou a qualidade de vida das pessoas que apresentavam doenças pépticas e ajudou a prevenir os episódios de hemorragia digestiva associados ao uso de anti-inflamatórios. Por esta razão, este remédios se tornaram tão populares em todo o Mundo, e hoje só não são mais vendidos que remédios para gripes e resfriados.

Com o aumento exagerado do uso e da prescrição destes medicamentos surgiu a preocupação de que efeitos colaterais a longo prazo pudessem ocorrer. Embora os bloqueadores de bomba sejam medicações muito bem toleradas, alguns textos médicos e reportagens na mídia têm descrito possíveis consequência deletérias do seu uso, causando angústia e alarme entre pacientes e médicos. Há uma lista de efeitos adversos associados a estes medicamentos, incluindo alterações na flora intestinal, infecção intestinal, deficiências nutricionais, pólipos de estômago, colite microscópica, tumores digestivos malignos (câncer de estômago), doença renal crônica, disfunção cognitiva, infarto do miocárdio, super-crecimento bacteriano intestinal, pneumonia, fraturas ósseas e interação com medicamentos. Na prática, há evidências relativamente fortes associando os bloqueadores de bombas a alterações na flora intestinal, deficiência de micronutrientes (magnésio, vitamina B12, ferro e cálcio) e infecção intestinal. No entanto, a qualidade de evidências para as outras alterações é baixa e sem consistência.

Quanto ao seu modo de agir, os bloqueadores de bomba agem diretamente nas células do estômago, causando a inibição prolongada (12 a 24 horas) da secreção de ácido. Por outro lado, estes remédios permanecem na corrente sanguínea por curto período de tempo, sendo rapidamente metabolizados (em até uma 1 hora). Por isso já não são detectáveis no sangue após 5 horas. Isto explica porque não algumas alterações sistêmicas não fazem sentido do ponto de vista biológico. Por outro lado, os efeitos consequentes da diminuição da acidez pelo estômago por várias horas explicam as alterações de absorção de nutrientes e de proliferação bacteriana no trato digestivo.

Com a hipocloridria (diminuição da acidez), os microrganismos ingeridos conseguem sobreviver, alterando a flora intestinal vigente. O grau de alteração da flora intestinal associada ao uso dos bloqueadores de bomba é comparável ao induzido por antibióticos. Também é preciso levar em consideração que o suco gástrico elimina micro-organismos patogênicos que ingerimos, “esterilizando”o estômago, o que se altera quando a acidez deste órgão se torna menos intensa. Por isso, pode haver o aumento de infecção intestinal por organismos que seriam mais ácido-sensíveis, como a salmonela e vibrião colérico. Outra explicação relacionando estes medicamentos ao maior risco de infecção seriam as alterações da flora intestinal (que poderiam ter efeito protetor contra infecções oportunistas) e aumento da permeabilidade intestinal (possibilitando a passagem de toxinas e microrganismos pela parede intestinal).

O câncer de estômago também é citado como um fator de risco. Há pouco tempo um estudo realizado por médicos de Hong Kong sugeriu que o uso crônico de bloqueadores de bomba poderiam causar um aumento em até 2,4 vezes na incidência de câncer de estômago. Particularmente, ao ler este artigo com visão crítica, percebe-se uma variedade de falhas na sua metodologia, o que invalida o estudo como uma regra. Por exemplo, não se levou em consideração a história familiar de câncer de estômago, que orientais são geralmente mais suscetíveis a este tipo de tumor, antecedente de tabagismo e hábitos alimentares pregressos. Desta forma, apesar de algumas teorias a respeito do risco de se diminuir a acidez do estômago e sua relação com o câncer de estômago, além do estímulo a produção de substâncias que poderiam ter um perfil carcinogênico (a gastrina, por exemplo), na prática clínica, não é o que vemos.

Quanto ao maior risco de fraturas, embora algumas evidências possam sugerir que há a associação entre os bloqueadores de bomba com a osteoporose, a confirmação desta relação com as fraturas ósseas é fraca. A justificativa para um maior risco de fraturas ósseas seria de que a diminuição da acidez no estômago poderia diminuir a absorção de cálcio e levar a deficiência de vitamina B12. Na prática, como estas fraturas são mais comuns em idosos, acreditamos que o uso dos remédios estão associados a outros problemas clínicos, e não como uma causa real. Em relação ao maior risco de desenvolvimento de distúrbios cognitivos, doença renal crônica, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, as evidências são muito fracas.

Na verdade, os bloqueadores de bombas são medicamentos efetivos e bem tolerados. Apesar de um grande número de associações entre este medicamentos e alterações clínicas na mídia geral, a qualidade das evidências clínicas e científicas ligando os bloqueadores de bomba a estas alterações é muito baixa. Quando estes medicamentos são prescritos de maneira apropriada, os benefícios superam muito os possíveis riscos de efeitos adversos. O risco absoluto é extremamente baixo (1 em cada 500 pacientes), e o medo destes riscos não deveria inibir a prescrição destas medicações. No momento, benefícios já estabelecidos estão sendo ofuscados por riscos que não foram totalmente comprovados. Não há dúvida de que os bloqueadores de bomba são usados em excesso. Estima-se que 30 a 50% das prescrições podem ser inapropriadas. Por isso, quando este medicamentos são prescritos a longo prazo, eles devem ser usados na menor dose possível, mas mantendo a eficácia. E tanto o medicamento quanto a dose, devem ser reavaliados periodicamente. Usado com sabedoria e com fundamentos científicos, os bloqueadores são uma imprescindível arma para o tratamento de algumas doenças do aparelho digestivo.

 Dr. Fernando Valério

Gastroenterologista e Nutrólogo

A produção de ácidos pelo estômago está precisamente regulada para maximizar os benefícios e minimizar os prejuízos. O suco gástrico mata microrganismos ingeridos, mantém o estômago e o intestino delgado relativamente estéreis, modula a flora intestinal, ajuda na digestão das proteínas e facilita a absorção de ferro, cálcio e vitamina B12, além de melhorar a ação […]
26 mar 19

A doença celíaca é uma doença autoimune que tem bases genéticas, e é desencadeada pela ingestão de uma proteína chamada glúten. O glúten está contido no trigo, centeio e cevada, mas algumas substâncias apresentam  contaminação frequente, como a aveia. A principal característica da doença é que a ingestão do glúten desencadeia um processo inflamatório intestinal, podendo levar a manifestação de sintomas gastrointestinais e extra-intestinais. O único tratamento com resultados satisfatórios para a doença celíaca é a exclusão completa do glúten da dieta, também chamada de dieta “gluten free”. A questão é que manter esta dieta pode trazer repercussões na qualidade de vida em todos os seus aspectos, e é disso que trata esta publicação.

Muitos fatores de qualidade de vida são afetados pelas nossas doenças físicas, presença de sintomas, efeitos indesejáveis de tratamentos, prognóstico e percepção da nossa própria saúde. É sempre muito importante reconhecer que a doença celíaca e a dieta sem glúten afetam todos os aspectos da vida, incluindo fatores culturais, sociais e necessidades emocionais. Alimentar-se não é somente um necessidade fisiológica de se repor nutrientes, alimentar-se também é um momento de estar com a família e amigos, de celebrar, de se socializar. Por isso, os estudos têm mostrado baixa qualidade de vida em pacientes portadores da doença celíaca, decorrentes dos sintomas da própria doença, da natureza muito restritiva da dieta sem glúten e de prejuízos emocionais associados. Não raro, a própria família e amigos próximos do celíaco questionam a necessidade da dieta tão rígida, e muitas vezes banalizam a doença e a tratam com algo trivial, gerando um afastamento social e tristeza por parte do paciente celíaco. Por isso, há a necessidade de apoio de médicos especializados no estudo da doença celíaca, nutricionistas, sociedades e grupos de pacientes, e do próprio governo (que controla as empresas de alimentos e rege leis). Assim, há o apoio coletivo, mais segurança na disponibilização dos alimentos sem glúten e maior oportunidade de apoio e orientação emocionais.

Sabe-se que o custo financeiro da dieta sem glúten afeta negativamente a qualidade de vida de muitos pacientes com doença celíaca. Em um estudo recente, mostrou-se que os custos de uma dieta sem glúten são  240% maiores que os produtos semelhantes com trigo. Outros estudos mostram também que a rigidez no seguimento da dieta e sua natureza restritiva  tem relação clara com a diminuição da qualidade de vida. Aproximadamente 75% dos pacientes referem ansiedade e depressão pós diagnóstico, enquanto esta incidência não ultrapassava 50% antes da confirmação de que se tinha a doença celíaca. Medo e ansiedade são geralmente associados a socialização com amigos, principalmente gerado por insegurança de que algum alimento possa ter sido contaminado. Sair de casa pode ser algo tão danoso para a estrutura emocional de pacientes celíacos que em uma pesquisa médica realizada mostrou-se que 81% dos entrevistados diziam evitar restaurantes, 38% evitavam viajar e 91% levavam a própria comida quando viajavam.

Uma preocupação relevante também existe em relação às crianças e adolescentes, que estão sempre expostos a cantinas e refeitórios de colégios e lanchonetes. Principalmente nos colégios, os pais e o responsáveis pela alimentação devem estar alinhados pela segurança e bem estar dos alunos. É digno que um adolescente possa comer com os colegas de classe ou comprar um lanche na cantina com tranquilidade e confiança, já que nesta idade fazer parte de um grupo e ter atitudes de comportamento semelhantes à maioria é algo que importa muito, que faz inclusão social e melhor desenvolvimento de relações humanas.

Todas estas informações são comprovadas pelo fato de 45% dos pacientes relatam que a doença afetou negativamente as suas atividades sociais, com amigos e em grupos. E que até 30% dos pacientes celíacos podem cursar com um quadro de depressão em algum momento.

Dr. Fernando Valério

Gastroenterologista e Nutrólogo

Especialista em Doença Celíaca e Distúrbios Funcionais Intestinais (alergias e intolerâncias alimentares, Síndrome do Intestino Irritável, diarreia crônica, constipação intestinal e alterações da flora intestinal).

A doença celíaca é uma doença autoimune que tem bases genéticas, e é desencadeada pela ingestão de uma proteína chamada glúten. O glúten está contido no trigo, centeio e cevada, mas algumas substâncias apresentam  contaminação frequente, como a aveia. A principal característica da doença é que a ingestão do glúten desencadeia um processo inflamatório intestinal, podendo […]
17 ago 17

Todos os dias somos bombardeados com comerciais e propagandas que nos estimulam a comprar produtos que poderiam melhorar a nossa flora intestinal e o funcionamento do nosso sistema digestivo. Estas ofertas variam desde alimentos comuns, como iogurtes e laticínios fermentados, a medicamentos como os probióticos, prebióticos e simbióticos. Mas será que há uma razão para isto, ou este é apenas um aspecto comercial sem fundamento? A resposta é: a nossa flora intestinal é muito importante para a nossa saúde e devemos estar atentos a este tema. Atualmente, com o desenvolvimento de técnicas mais avançadas, foi possível revelar a complexidade e a diversidade das funções da nossa flora intestinal. Mais do que isto, podemos afirmar que alterações na composição e equilíbrio da nossa flora intestinal, o que denominamos disbiose, estão associadas a inúmeras doenças gastrointestinais. Mas a dúvida que ainda remanesce é se a disbiose é a causa ou a consequência destas doenças. (mais…)

Todos os dias somos bombardeados com comerciais e propagandas que nos estimulam a comprar produtos que poderiam melhorar a nossa flora intestinal e o funcionamento do nosso sistema digestivo. Estas ofertas variam desde alimentos comuns, como iogurtes e laticínios fermentados, a medicamentos como os probióticos, prebióticos e simbióticos. Mas será que há uma razão para […]
24 abr 17

A obesidade é uma doença endêmica em todo o Mundo, e no Brasil a prevalência desta doença metabólica e suas consequências cresce visivelmente. Sabemos que atualmente 54,1% dos brasileiros adultos está com sobrepeso ou é obeso. E o que mais preocupa é que as crianças também estão sofrendo com este mal, onde 15% das nossas crianças já estão acima do peso. Pensando apenas em crianças abaixo de 5 anos, 7,3% deste grupo etário já está afetado pelo excesso de peso. Segundo alguns dados recentes, a obesidade infantil aumentou 300% nos últimos 40 anos. Como médico, a preocupação é que as consequências da obesidade infantil são óbvias, com alterações psicossociais, endócrinas, gastrointestinais, ortopédicas e cardiorrespiratórias. Além disso, crianças acima do peso serão em 40% das vezes adultos obesos, enquanto 80% dos adolescentes obesos também manterão este padrão de peso na idade adulta. O objetivo médico imediato é identificar as crianças com sobrepeso e obesidade, orientar as famílias e ajudar no controle dos fatores de risco para doenças crônicas.

Como a obesidade e suas comorbidades se tornaram o maior desafio médico global quando se pensa em doenças que afetam crianças e adolescentes de todas as idades, a identificação dos fatores de risco é muito importante. Estes fatores são divididos em intrauterinos e pós-natais.

Fatores intrauterinos:

  • Diabetes gestacional
  • Hipertensão arterial materna
  • Excesso de ganho de peso materno durante a gestação
  • Alterações no crescimento fetal intrauterino (pequeno ou grande para a idade gestacional)
  • Exposição fetal ao cigarro e cocaína

 

Fatores pós-natais:

  • Introdução precoce de alimentos sólidos ao bebê (menos de 4 meses de idade)
  • Amamentação materna por período menor que 6 meses
  • Pais com excesso de peso
  • Excesso de tempo utilizando aparelhos eletrônicos (TV, videogames, tablets, celulares)
  • Relação materno-infantil frágil

 

A história alimentar e de peso dos pais e familiares deve ser associada à presença da obesidade infantil, já que padrões genéticos e comportamentais podem estar presentes. A evidência de que uma significante relação entre variáveis genéticas e comportamentais existe e já foi comprovada. Além disso, crianças com pais e familiares obesos costumam seguir os mesmos padrões dietéticos e alimentares, o mesmo gasto de tempo em frente à televisão e aparelhos eletrônicos, pouco prática de atividades físicas, o que explica a tendência de que toda a família esteja fora dos padrões de peso e comportamento alimentar adequados. Estudos recentes também mostram que alterações na flora intestinal (microbiota) poderiam explicar em parte a presença da obesidade infantil, já que as bactérias intestinais afetariam o processamento de nutrientes pelo intestino, além de gerar resposta imunológica e inflamatória que colaborariam com o desenvolvimento da obesidade. Uma explicação para que a flora intestinal se alterasse em crianças seria o uso de antibióticos em idade inferior a dois anos. Mesmo que a flora intestinal se recuperasse após o término do uso do medicamento, já poderia ter havido uma persistente alteração nos padrões de metabolismos e aspectos físicos da criança.

A definição mais clara da obesidade é o excesso de massa gordurosa. A principal maneira como se identificam as crianças com excesso de peso são as medidas antropométricas, que utilizam o peso e altura. Outras formas de medida, como a densitometria, bioimpedância e ressonância magnéticas não são utilizadas rotineiramente na prática clínica para a avaliação de crianças. Por isso, métodos como o índice de massa corpórea e medidas da circunferência abdominal e pregas cutâneas são praticamente os métodos exclusivos de medida. Após a realização destes cálculos, os dados devem ser aplicados a curvas que consideram a idade da criança. Ou seja, índices de massas corpóreas podem ser considerados normais ou não dependendo da faixa etária. E mesmo que este método de avaliação não defina a massa muscular, óssea e gordurosa de maneira individualizada, o seu padrão de resultados é bem aceitável e compatível com a realidade na maior parte dos casos.

Quando se identifica e se comunica o excesso de peso em crianças é sempre importante que o médico fique atento ao estigma que este diagnóstico trará. Crianças “gordas” são comumente associadas à comportamentos preguiçosos, à falta de atratividade e até mesmo, estupidez. É por isso que médicos, nutricionistas e familiares devem entender e estar sensíveis aos sentimentos que a criança demonstra de vergonha, falta de motivação e até mesmo de depressão frente a um problema físico aparente. Os pais não devem se sentir julgados e criticados quando os seus filhos recebem o diagnóstico de sobrepeso e obesidade, e sim colaborar com a equipe de saúde para que o seu filho se trate de maneira adequada e responsável. O sentimento de culpa não ajuda a qualquer parte durante o processo, seja a criança ou os pais. Por outro lado, médicos não devem apenas explicar sobre a doença, mas também propor cuidados e tratamentos.

Além do óbvio efeito estético que o sobrepeso e a obesidade causam, há ainda uma enormidade de complicações relacionadas a esta doença. São elas:

  • Psicossocial: distúrbios de autoimagem, vitimização, baixa autoestima, prejuízo na socialização, ansiedade, sintomas depressivos e distúrbios alimentares comportamentais.
  • Cardiovascular: dislipidemia (aumento de colesterol e triglicérides), hipertensão arterial, desenvolvimento de placas de atero-esclerose precocemente.
  • Endocrinológica: aumento de insulina, pré-diabetes, diabetes tipo 2, síndrome metabólica.
  • Respiratória: apneia do sono.
  • Gastrointestinal: esteatose hepática (gordura no fígado).
  • Ortopédicas: dores articulares em membros inferiores, piora na mobilidade.

 

Quanto ao tratamento, obviamente ele exige uma mudança de estilo de vida da criança, e provavelmente, de toda a família. Melhores escolhas alimentares, orientação quanto à horários das refeições e definição das porções dos alimentos são sempre medidas necessárias. Uma medida didática criada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é a regra do 5-2-1-0, que corresponde às seguintes orientações.

  • 5 ou mais porções de frutas, verduras ou legumes ao dia.
  • 2 horas ou menos de televisão ou videogames ao dia.
  • 1 hora ou mais de alguma atividade física.
  • 0 (zero) consumo de bebidas e alimentos adoçados com açúcar.

 

Os resultados quando se realizam estas medidas comportamentais de média ou alta intensidade costumam ser efetivos na redução do índice de massa corpórea em um período de 12 meses. Alguns estudos mostram que após a reeducação alimentar esta adequação do peso pode ser duradoura. Em casos extremos, quando não se consegue que medidas comportamentais sejam instituídas, quando estas não atingem os resultados esperados ou quando não se consegue controlar as complicações decorrentes da obesidade, o uso de medicamentos pode ser necessário. Atualmente, os Estados Unidos liberaram apenas o uso do orlistate como tratamento medicamentoso específico para crianças. Mas no caso de crianças com pré-diabetes ou diabetes, medicações que reduzem a glicemia (hipoglicemiantes) podem ser usados. Alguns estudos sugerem alguma redução de peso com o uso destas medicações. Nas crianças em que a esteatose hepática gerou um processo inflamatório no fígado (esteato-hepatite), o uso de suplementos de vitamina E tem sido proposto.

Quanto à cirurgia bariátrica, este método de tratamento mais radical tem espaço em adolescentes, mas desde que estes sigam regras rigorosas de indicação do procedimento. É preciso sempre reforçar que esta cirurgia visa o controle de comorbidades e complicações causadas pela obesidade, e não deve ser usada como um artifício estético. Dentre os critérios de inclusão para a realização da cirurgia estão a falta de resultado com medidas alimentares e atividade física, a capacidade do adolescente em decidir comprovada, ter maturidade psicológica, ter índice de massa corpórea maior que 50 ou maior de 40 com comorbidades associadas (hipertensão arterial, diabetes, apneia do sono), ter a capacidade de entender as consequências da cirurgia, ser capaz de aderir a programas de adequação de estilo de vida após a cirurgia, e no caso da meninas, não engravidar por um período de até um ano após o procedimento.

Acredito que com este artigo consegui passar informações que lhes comprovem a gravidade do que significa uma criança estar com sobrepeso ou obesa, as suas consequências, além de algumas medidas e orientações para que esta doença possa ser tratada de maneira correta e duradoura. Obviamente estas crianças precisam ser acompanhadas por profissionais habilitados e que trabalhem juntamente com as famílias para que bons resultados sejam atingidos.

Dados do autor:
Dr. Fernando Valério
Gastroenterologista, Nutrólogo e Proctologista
São Paulo, SP
Consultas: particulares e Omint

A obesidade é uma doença endêmica em todo o Mundo, e no Brasil a prevalência desta doença metabólica e suas consequências cresce visivelmente. Sabemos que atualmente 54,1% dos brasileiros adultos está com sobrepeso ou é obeso. E o que mais preocupa é que as crianças também estão sofrendo com este mal, onde 15% das nossas […]
09 jun 15
Prebióticos e Probióticos: o que são e o que fazem para a nossa saúde?

Dr Fernando Valerio - Blog - Próbioticos
O trato gastrointestinal humano constitui o habitat de uma comunidade bastante grande e diversificada de microrganismos (bactérias). A colonização do trato gastrointestinal inicia-se imediatamente após o nascimento. Durante os primeiros dias de vida, o intestino é colonizado por bactérias provenientes do ambiente e da mãe. Entre 10 a 20 espécies compõem em torno de 90% das células bacterianas que ocupam o intestino humano. A mudança para microbiota adulta acontece após o desmame e, já no segundo ano de vida, a constituição da microbiota intestinal torna-se similar àquela de um adulto e mantém-se relativamente estável ao longo da vida. A quantidade e variedade de microrganismos aumentam progressivamente desde o estômago até o cólon. Em um indivíduo adulto, o trato gastrointestinal contém 10 vezes mais bactérias do que o número de células do corpo humano inteiro. Como esses microrganismos são metabolicamente ativos e interagem continuamente com o seu ambiente, são capazes de exercer uma influência significativa no desenvolvimento e na fisiologia do hospedeiro. Os prebióticos são ingredientes de alimentos que beneficiam o organismo do hospedeiro estimulando o crescimento e/ou o aumento da atividade de um número limitado de espécies de bactérias, gerando seletividade no cólon e possíveis benefícios à saúde e ao bem-estar dos indivíduos. Os probióticos são definidos como microrganismos vivos os quais conferem benefícios de saúde ao hospedeiro, quando administrados em quantidades adequadas. Sendo assim, o objetivo deste artigo é discutir do que se tratam os prebióticos e probióticos, assim como os seus possíveis efeitos à nossa saúde. (mais…)

O trato gastrointestinal humano constitui o habitat de uma comunidade bastante grande e diversificada de microrganismos (bactérias). A colonização do trato gastrointestinal inicia-se imediatamente após o nascimento. Durante os primeiros dias de vida, o intestino é colonizado por bactérias provenientes do ambiente e da mãe. Entre 10 a 20 espécies compõem em torno de 90% […]